Existe um momento em que a noite deixa de ser um convite para um bom descanso e se torna o palco de um teatro sem plateia — mas com uma enorme fila lá fora. O "mundo" apaga as luzes, o silêncio ganha peso e a mente decide ligar todos os refletores.

Quando o sono não vem, o tempo muda de ritmo. Os minutos parecem se arrastar e aquela contagem regressiva — “se eu dormir agora, ainda tenho algumas horas de sono” — só torna tudo mais distante.

Apesar de não precisar acordar cedo, uma inexplicável obrigação de dormir toma conta de mim, fazendo a minha mente entrar em um grande desfile.

Na ausência do sono, a mente vira um arquivo aberto, sem filtro algum. É nesse espaço suspenso que surgem as ideias mirabolantes e resoluções de vida que parecem geniais às três da manhã.

Um museu de memórias ganha vida: você se lembra daquele comentário que daria tudo para voltar no tempo e não ter feito (e que ninguém lembra, exceto você). Vem a memória daquela singela atitude que deveria ter tomado e que teria mudado completamente o rumo da sua vida.

E, nesse palco, novos atos surgem. Começam os planejamentos para resolver os problemas dos próximos dez anos — e as soluções parecem perfeitas.

A insônia é um encontro marcado com tudo aquilo que a gente passou o dia inteiro ocupado demais para ouvir.

Lutar contra ela é como tentar se acalmar com alguém gritando no seu ouvido: “CALMAAAAA!”. Só gera cansaço. Se o corpo não consegue dormir, que ao menos a mente descanse da obrigação de pegar no sono — e aceite o silêncio da madrugada como um momento de reflexão.

Ah, e antes que eu me esqueça: aquela fila enorme lá fora? É tudo o que ainda está por vir.